O Homem da máquina do tempo
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BIOGRAFIA DE EDUARDO CAMÕES

O Homem da Máquina do Tempo

A melhor definição de Eduardo Camões é ele mesmo quem dá: "sou um apaixonado pelo Rio de Janeiro". Aos 50 anos o carioca conhecido no meio por Camões tem como marca registrada seus trabalhos sobre o Rio antigo. Filho de pintora, desde criança aventurou-se entre as tintas e pincéis. "Quando era pequeno, minha mãe não tinha com quem me deixar. Então me levava para o Instituto de Belas Artes (Praia Vermelha) aonde ela fazia curso de desenho e pintura. Enquanto tinha as aulas, ficava ao seu lado pintando também . Só não me deixava assistir as aulas de modelo vivo. Eu ia pro lado de fora e ficava desenhando o que tinha ao redor, que era a praia e o mar."

Aos 12 anos, a família mudou-se para Brasília e Camões ficou a 1.000 km do Rio de Janeiro. Em 73 foi fazer intercâmbio no sul da Califórnia. "Fui parar no lugar certo, pois a efervescência artística lá era muito grande, tinha tempo para pintar e estava a apenas uma hora e meia do mar". Conta que gravava imagens das praias em super 8 para vê-las durante a semana toda. Depois de um ano voltou para casa, sem nenhum de seus trabalhos. "Nao trouxe nada do que eu tinha pintado lá porque vendi tudo. Era uma pintura impressionista, onde eu usava mais espátula do que pincel, com camadas grossas de tinta".

Chegou então a época de prestar vestibular. "Decidi por Desenho Industrial porque era um curso que não existia em Brasília. Se tivesse escolhido Belas Artes, meu pai me mandaria ir estudar na UNB". Alcançado o objetivo de voltar para a cidade natal, Camões começa pintando a Ipanema da década de 70 em quadros hiper realistas. "A barraca de cachorro quente da Geneal, as meninas jogando frescobol, o vendedor de mate. Era o Rio do reencontro. Queria retratar o espiríto carioca de ser. Fiz isso durante 1 ano e meio". Foi quando concluiu que estava sendo um simples repórter do que acontecia na cidade. "Precisava entender o porquê de termos nos tornados o que somos". Passou então a estudar o desenvolvimento da cidade e da alma carioca. Contactou colecionadores de livros antigos e postais sobre o Rio antigo. Buscava retratar uma cidade que ninguém vivo chegara a conhecer. "Achei fascinante a idéia de transformar fotografias antigas em instantâneos coloridos, como se eu tivesse entrado numa máquina do tempo, retornado àquela época e tirado fotografias coloridas. Aproveitando a minha técnica adquirida com o hiperrealismo, poderia fazer uma pintura quase que fotográfica".

Depois, começou a retratar lugares pouco fotografados na época, como a zona sul, que era um arrebalde da cidade. Partiu então a estudar os desenhos de artistas botânicos viajantes que aqui estiveram entre os séculos XVII e XIX. "As primeiras fotos foram tiradas a partir de 1860". Atualmente, se utiliza de diversos pontos de referência, como textos descritivos antigos, fotografias aéreas tiradas de helicópteros, além dos desenhos, podendo assim reconstituir a topografia da época. "Não cabem comentários que às vezes eu escuto do tipo: 'Camões colore fotografias do século passado'. Não é bem assim."

O ponto de partida foram lugares pitorescos do Rio na década de 70 como Grumari, Cabo Frio e Búzios. A pesquisa começou em 86. "Eu já pintava as praias da cidade do Rio, mas subtraía os prédios e tudo mais. Retratava uma praia agreste, contudo sem exatidão iconográfica". Com a recessão após o plano cruzado e a falta de encomendas, começa a fazer a pesquisa que reformularia o seu trabalho e lhe daria o embasamento histórico necessário. A primeira exposição da nova fase foi em 88 com sucesso total. "Foi muito recompensante. Costumamos falar que o brasileiro não preserva a sua cultura, mas estamos começando a ter consciência de preservação. Pena que para algumas coisas seja muito tarde. O topo de Lausanne, na Suíça tem até hoje uma contrução que foi a fundação da cidade. Lausanne foi fundada há mais de mil anos. Às vezes me perguntam se não me sinto anacrônico fazendo este trabalho. Nos Estados Unidos têm algumas dezenas de pintores que fazem a mesma linha que eu faço. Isto não teria sentido na Europa, que tem uma história milenar. Mas tanto nos Estados Unidos como aqui, na época colonial não existiam mecenas apoiando a arte. Portanto temos muitas lacunas que devem ser preenchidas."

Além do Rio antigo, Camões já fez trabalhos sobre Recife, Porto Alegre, o Paraná e uma série de com cidades americanas.

Por falar nos Estados Unidos, este mercado tem sido uma de suas metas. Há três anos divulga e difunde suas obras por lá. Passou um ano e meio atrelado a uma rede de galerias da costa leste americana, que estava só interessada em vender os seus quadros. Com isso, resolveu montar uma seleção de galerias escolhidas a seu critério, que atualmente são 12. Já está recebendo propostas para o licenciamento da impressão de seus trabalhos. "Quando fechar com um grande publisher destes, o preço dos meus quadros irá subir muito, pois passarei a ter uma projeção nacional nos Estados Unidos, ou seja, no mundo inteiro. Porque esta é a realidade. Lá, um pintor top desta linha vende um quadro grande por até 400 mil dólares. Obviamente, meus quadros ainda não alcançam nem de perto este valor. Mas também tem o seguinte: se você não puder comprar um quadro meu, tem as litografias que custam R$ 400,00 emolduradas. Tá caro? Eu tenho litos em papel na faixa de R$ 60,00. E quem não puder pagar, existem cartões postais a R$ 1,00 cada. Até mendigo pode comprar."

Por aqui, a grande popularização da sua obra deu-se pelo livro "O Rio antigo por Camões", que está na 7ª edição. Foi escrito em 93 e lançado em 94. Agora está preparando o volume II, previsto para março de 2002, com a continuação das pesquisas e muitas imagens do Rio. "O formato com 110 páginas dá pra vender por um preço razoável. Um livro de arte nacional de grande porte custa de 200 a 300 reais e está fora da faixa de consumo do brasileiro médio." Diga-se de passagem, tão interessante quanto as imagens são os textos, que relatam curiosodades e peculiaridades sobre a história da cidade.

  Pra quem acha que a vida de pintor é mole, Camões acorda todos os dias às seis da manhã, pedala 30 km por dia pelas praias e às dez já está sentado em frente ao cavalete. Trabalha de domingo a domingo 14 horas por dia. "Trabalho tanto porque fiz do meu hobby a minha profissão. Não sou rico, nunca recebi herança e tudo o que tenho comprei com a minha pintura."

A fixação na profissão sempre foi tão grande que Camões tentou até ser diplomata por amor à arte. "Me inspirei no Sérgio Telles, um pintor que conseguiu muita coisa no mercado internacional porque era diplomata. Então, queria entrar no Itamaraty pra ser pintor. Mas como nunca fui bom aluno e no Instituto Rio Branco os primeiros colocados têm prioridade na escolha das embaixadas, eu iria terminar provavelmente no Gabão ou na Costa do Marfim."

Sobre sua técnica, diz que é autodidata e só trabalha com tinta acrílica, porque não tem cheiro, é mais limpa e durável que a óleo. "A tinta acrílica foi desenvolvida pela Dupont em 1929, a pedido do grupo muralista mexicano. Não que eles quisessem uma tinta que fosse melhor pra trabalhar ou que não tivesse cheiro. Queriam que fosse mais durável do que a tinta óleo e que aturasse melhor a poluição industrial que já começava a existir na Cidade do México. Tanto que a Dupont só começou a comercializá-la na década de 60, após rigorosos testes."

 Pra fechar, até o fim do ano estará pronta a sua, literalmente, maior obra: um painel de 2,5 m de altura x 13,60 m de comprimento que vai ficar na cobertura do hotel Marriot de Copacabana e que poderá ser visto de toda a extensão da praia.

"Passo dias inteiros com fantasias na cabeça e uma tela em branco na frente" 

Texto de Gustavo Franck para matéria veiculada na edição nº 22 da revista Vizoo.

 

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